EXERCITA-TE A TI MESMO NA PIEDADE

A seção do blog para o qual este texto está sendo escrito chama-se Jovens Piedosos, e percorrendo por toda a Escritura, podemos encontrar jovens como José, Davi e Daniel, exemplos de piedade e subserviência à Deus. Hoje, porém, gostaria de pensar um pouco sobre outro jovem, Timóteo, que teve o privilégio de acompanhar o grande apóstolo Paulo em suas viagens missionárias e ser orientado por ele.

Paulo tinha grande afeto por Timóteo, tanto é que se refere a ele como seu “amado filho”. Timóteo havia sido deixado em Éfeso para pastorear a igreja, e Paulo o escreveu duas cartas para ajudá-lo em sua conduta diante dos problemas enfrentados. Em sua primeira carta, Paulo exorta Timóteo a conservar a pureza da doutrina e se contrapor aos falsos mestres que surgiram naquele lugar. Em sua segunda carta, o apóstolo Paulo reitera que Timóteo zele pela sã doutrina, oferta-lhe encorajamento em seu ministério, e roga-lhe que vá ter com ele depressa, uma vez que o tempo do seu martírio era chegado e ele, que tinha grande afeição por seu “amado filho”, encontrava-se sozinho, abandonado por muitos dos que andavam consigo (cf. II Tm. 4.6-18). Assim sendo, II Timóteo foi a última carta escrita pelo Apóstolo Paulo. Diante de tudo isto, Paulo ofereceu direcionamentos ao jovem Timóteo e preciosas lições, tanto para ele, como para nós, hoje, mediante a atuação do Espírito Santo nas Sagradas Escrituras.

Um desses ensinamentos é justamente o título do texto. No capítulo 4 de I Timóteo, Paulo ordena: “Exercita-te a ti mesmo na piedade”. E ele continua: “Pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa”. Qual a razão de ser dessa ordem? Paulo está fazendo recomendações a Timóteo a fim de que ele seja um “bom ministro de Cristo Jesus” (vs 6). Ele começa o capítulo tratando acerca da apostasia e da hipocrisia dos que proibiam coisas lícitas criadas por Deus para serem recebidas com ações de graças, como o casamento e alimentos (vs 1-5). Timóteo era um rapaz instruído desde a infância nas Escrituras, além do mais, tinha Paulo como seu instrutor (creio que só os discípulos tiveram um professor melhor: o próprio Deus!). Por isso, ele seria um bom ministro de Cristo se expusesse e ensinasse aos irmãos as palavras da fé e da boa doutrina que ele vinha seguindo (vs 6). E Paulo ainda mostrou como ele deveria fazer isso: através do viver piedoso.

Quando fala-se em piedade, as pessoas têm uma ideia de comiseração, compaixão, pena. Mas essa não é a piedade cristã. O grande reformador João Calvino deu bastante ênfase sobre a piedade em seus escritos. Ele definiu da seguinte forma: “A verdadeira piedade consiste em um sentimento sincero que ama a Deus como Pai, ao mesmo tempo em que o teme e o reverencia como Senhor, aceita a sua justiça e teme ofendê-lo mais do que teme a morte”. Comentando esse assunto, Joel Beeke escreveu: “Para Calvino, piedade designa uma atitude própria para com Deus e obediência a Ele. Emanando do conhecimento de quem Deus é (teologia), a piedade inclui adoração sincera, fé salvadora, temor filial, submissão e amor reverente.”¹ A piedade é tão somente tributar a Deus a glória que lhe pertence. Dando uma moral aos presbiterianos, lemos no Breve Catecismo de Westminster que o fim principal do homem é glorificar a Deus, esse é o alvo da piedade, e nós o glorificamos cumprindo a sua própria vontade revelada nas Escrituras. Por isso, apesar de muitos, imprudentemente, afirmarem o contrário, o estudo da teologia é extremamente importante para o crescimento na piedade. Beeke afirma que o homem piedoso anseia por conhecer mais a Deus (teologia) e ter mais comunhão com ele; seu mais profundo interesse é Deus mesmo e as coisas de Deus.

Voltando ao texto de Timóteo, Paulo compara o exercício da piedade com o exercício físico (vs. 8). Este é útil para algo; aquele, para tudo é benéfico. Wilian Hendriksen explica essa passagem: O exercício físico, “no melhor dos casos, promove a saúde, o vigor, a beleza física. Estas coisas são maravilhosas e devem ser apreciadas”, a piedade, porém, “promove a vida eterna”. Ele continua, “a esfera em que  exercício físico é de proveito é muito mais restrita do que aquela em que a vida eterna concede sua recompensa”². Outra coisa que podemos depreender do texto é que a piedade é um exercício. Da mesma forma que progredimos em santificação, progredimos também em piedade, e podemos utilizar os meios de graça nesse crescimento, tais como: (a) oração: por meio dela somos levados a nos submetermos totalmente à vontade de Deus, expressando nossa total dependência à Ele, lançado sobre si todas as nossas ansiedades e confiando que ele tem o melhor para seus filhos e que podemos descansar nEle. (b) leitura bíblica: como já falado, através das sagradas letras e de sua obediência, discernimos qual a vontade de Deus e o que Ele requer de nós. Calvino disse que a Escritura é Deus falando conosco como um pai fala com seus filhos. (c) comunhão dos santos: Para Beeke, o progresso na piedade não é possível sem a igreja, pois ela [a piedade] é nutrida pela comunhão dos santos. Calvino fala que, sob a liderança de Cristo, os crentes amam e cuidam uns dos outros, apegando-se na distribuição mútua dos dons. Todas essas, além de outras, são formas do cristão progredir em piedade. No final do versículo 8, Paulo explica porque a piedade para tudo é benéfica: “pois tem a promessa da vida que agora é e da que há de ser”.

Diante de tudo isto, meus irmãos, persigamos a piedade como fim principal em nossa vida, sabendo que ela para tudo é proveitosa. Dessa forma, Timóteo deveria ensinar ao povo e, assim, ele seria um bom ministro do evangelho. Dessa forma, também, nós, poderemos ser testemunhas de Cristo, anunciando sua glória. Que o Soli Deo Gloria seja não apenas um princípio, mas um desejo em nossos corações. Que sejamos, realmente, jovens piedosos. Para variar, terminemos com um comentário de Calvino sobre a passagem em estudo: “Você fará algo de grade valor se, com todo o seu zelo e habilidade, se dedicar unicamente à piedade. A piedade é o começo, o meio e o fim do viver cristão. Onde ela é completa, não há falta de nada… A conclusão é que devemos concentrar-nos, exclusivamente, na piedade, pois, uma vez que a tenhamos atingido, Deus não exige de nós qualquer outra coisa”.

Em Cristo,

 

Gustavo Buriti.

https://www.facebook.com/gustavo.buriti.1

 

¹ Vivendo para a glória de Deus, Joel Beeke. Ed. Fiel. Página 192.

² Comentário sobre I Timóteo, II Timóteo e Tito. Willian Hendriksen. Ed. Cultura Cristã. Página 190.

Obs.: Esses foram os dois livros utilizados como base para esse texto. Quem quiser ler um pouco mais sobre o assunto, recomendo o capítulo 13 do livro de Joel Beeke supracitado.

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1 comentário

  1. Deus seja louvado pela vida do autor desse artigo! Estava procurando justamente um bom texto que me esclarecesse sobre a piedade. Minha dúvida, que surgiu quando estava lendo I Timóteo 4, era se a piedade é um dom ou deve ser desenvolvida pelo cristão. Agora entendi!
    Cresçamos em piedade!!

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