Tudo é vaidade

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Sempre costumo dizer o quanto acho extraordinário o livro de Eclesiastes. Não que um livro bíblico seja mais importante que o outro, mas as lições que este livro nos traz e a maneira pela qual o autor observa o mundo são, para mim, singulares. E, de fato, enquanto relia o livro e comentários sobre o mesmo, tive mais certeza disto.

Pelo estudo do livro, acredita-se que o autor tenha sido o rei Salomão. Isto obtém um significado especial uma vez que ele, além de toda sabedoria adquirida da parte de Deus, sendo insuperável na história de Israel (I Rs 3), buscou somar sua sabedoria à experiência de vida, aplicando seu coração a “esquadrinhar e a informar-se com sabedoria de tudo quanto sucede debaixo do céu” (Ec. 1.13). Pode, também, ter sido um sábio desconhecido na corte real, mas é certo que os ditos de Salomão influenciaram bastante o livro de Eclesiastes. O autor, no entanto, apresenta-se apenas como o Pregador.

À primeira leitura e sem o correto entendimento, tendemos a achar o livro um tanto quanto pessimista e negativo, posto que o autor nos fala sobre a eterna mesmice debaixo do sol, opressão, as tribulações e desigualdades da vida, o reinado da maldade no lugar do juízo e da justiça, a efemeridade da vida, entre tantos outros temas. O assunto recorrente, porém, é a vaidade. Diversas vezes essa palavra é empregada em todo o livro. Só no verso dois do primeiro capítulo são cinco vezes, característica típica da escrita hebraica, na qual a ênfase é demonstrada pela repetição das palavras: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador; vaidade de vaidades, tudo é vaidade.” Esta palavra, aqui, tem o sentido de “efêmero”. D. L. Moody ensina que ela tem duas conotações: aquilo que é transitório e aquilo que é fútil. No texto acima, o sentido é literalmente: o tudo é vaidade. Ou seja, todas as atividades da vida que fazemos “debaixo do sol” (vs 3). Conforme Moody diz: “[A expressão tudo é vaidade] Enfatiza a rapidez com a qual as coisas desaparecem e o pouco que oferecem enquanto de posse delas. […] Isto é, a coisa toda, a totalidade da existência é vã.” Aqui no blog, em outro texto, já tratei sobre esse assunto da efemeridade da vida¹, mas gostaria de falar mais um pouco aqui, tendo o livro de Eclesiastes como pano de fundo desta vez.

Como disse, muitos podem achar o livro pessimista e talvez não poderia ser diferente. O que você pensaria de alguém que dissesse que tudo o que você faz e toda sua existência é vã? E é isso mesmo o que o Pregador quer dizer, porém devemos entender o sentido dessa afirmação. Depois de aplicar o coração a esquadrinhar tudo o que ocorre debaixo do sol (1.13), o autor conclui que “toda a existência humana, quando vivida longe de Deus, é frustrante e insatisfatória. Todos os prazeres e coisas materiais dessa vida, quando buscadas por causa delas mesmas, nada produzem a não ser a infelicidade e um senso de futilidade” (Moody). Segundo a Bíblia de Estudo de Genebra, o propósito do livro é “demonstrar que a vida vista unicamente a partir da perspectiva humana realista resultará em pessimismo, e oferecer a esperança por meio da obediência humilde e da fidelidade a Deus.” Ao entender isto, fica mais fácil entender e concordar com o autor quando ele diz que “tudo é vaidade e correr atrás do vento.” E ele nos traz alguns exemplos, dos quais citarei apenas três:

A vaidade das possessões (Ec. 2.1-11)

O autor parte em busca de prazer e gozo como possível fonte de satisfação. Para tanto, ele resolve dar-se ao vinho e entregar-se à loucura, até ver o que melhor seria que fizessem os filhos dos homens debaixo do céu, durante os poucos dias de sua vida; regendo-se, contudo, pela sabedoria (vs. 3). Então, empreendeu grandes obras, edificou para si casas, plantou vinhas, fez açudes para regar seus bosques, comprou servos, possuiu ovelhas e bois, amontoou ouro e prata e tesouros e proveu-se das “delícias dos filhos dos homens: mulheres e mulheres” (ainda mais tratando-se de Salomão). Assim, sobrepujou a todos que viveram antes dele, não negando nada do que desejaram seus olhos, nem privando seu coração de alegria alguma. Porém, após considerar todas estas obras e as fadigas que vieram com elas, observou que tudo era vaidade e nenhum proveito havia para si.

A vaidade da sabedoria (Ec. 2.12-17)

Então, passou o Pregador a considerar a sabedoria e a loucura. Apesar de perceber que a sabedoria é mais proveitosa que a estultícia, compreendeu que esta é uma pequena vantagem temporária. Conforme ensina Moody, o sábio observa o que está a sua frente e escolhe o que lhe dá maior prazer, enquanto o néscio descobre o prazer por acaso, porém o proveito não é tão duradouro visto que o destino de ambos é o mesmo: a morte. Pois, “tanto do sábio como do estulto, a memória não durará para sempre; pois, passados alguns dias, tudo cai no esquecimento. Ah! Morre o sábio, e da mesma sorte, o estulto” (vs. 16). Também isto é vaidade e correr atrás do vento.

A vaidade do trabalho (Ec. 2.18-26)

Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho com que se afadiga debaixo do sol? O autor faz essa pergunta no terceiro verso do livro. E os benefícios que ele pode obter de todo o trabalho árduo são passageiros, posto que, da mesma forma, ele perderá tudo na morte. Não apenas ele trabalharia toda uma vida para acumular riquezas terrenas e perdê-las na morte, como ele poderia deixar todo seu ganho para um herdeiro tolo ou ingrato. Não importa se ele usou toda ciência, sabedoria e destreza em seu fadigoso ofício, o fato é que toda sua riqueza ficaria para quem por ela não se esforçou, havendo a possibilidade de que o herdeiro não preze por ela e a desperdice. Isto também é vaidade e desejo vão.

Tanta coisa poderia ainda ser falada sobre vaidade. Mas após analisar apenas estes três aspectos que estão nos primeiros capítulos do livro, a pergunta que fica é: depois de tudo isto, como então viverei sabendo que nada do que faço aqui na Terra subsistirá? O Pregador nos dá um vislumbre desta resposta nos versos 24 e 25 do segundo capítulo:

Nada há melhor para o homem do que comer, beber e fazer que sua alma goze o bem do seu trabalho. No entanto vi que isto vem da mão de Deus, pois, separado deste, quem pode comer ou quem pode alegrar-se?

Destes dois versos podemos extrair belíssimas lições. (1) Devemos desfrutar das dádivas que recebemos enquanto podemos. Por mais que seja desesperador pensar que tudo o que fazemos pode ser vão, a verdade é que elas nos trazem algum prazer, mesmo que momentâneo, e devemos aproveitá-las em nossas vidas, fazendo com que nossa alma goze o bem pelo qual batalhamos. (2) Uma vez que reconhecemos que tudo o que temos é graça de Deus, nós o glorificamos com nosso proceder perante estas questões e com nossa gratidão. Isto traz sentido à nossa existência: quando usamos nossa vida para trazer glória a Deus, percebemos que a felicidade está nele e não em qualquer bem ou riqueza que nós possuímos.

Da primeira pergunta do Catecismo de Westminster aprendemos que nosso fim principal é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. Tendo isto sempre em mente, vivamos sabendo que somos peregrinos. Não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura (Hb. 13.14). Então que nossa busca pela felicidade termine em Cristo, já que ele é a única fonte de verdadeira satisfação. Como diz John Piper: “Deus é mais glorificado em nós, quando estamos mais satisfeitos nEle.”

Se você ainda não leu Eclesiastes, não deixe de ler. Lições preciosas como estas ele tem para nos ensinar.

Em Cristo,

Gustavo Buriti.

https://www.facebook.com/gustavo.buriti.1

¹https://cristaoscontraomundo.wordpress.com/2014/04/16/acertezadaincertezadoamanha/

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